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Dos Conselhos aos Coletivos Jovens de Meio Ambiente: uma discussão necessária
Fábio Deboni da Silva Sinopse
Este texto tem como objetivo iniciar uma discussão a respeito do papel que os chamados “Conselhos Jovens de Meio Ambiente” (Cjs) desempenharam e vem desempenhando no âmbito da sua atuação em prol da questão ambiental em todo o país. Amplifica o debate em torno da mudança de nome de “Conselho“ para “Coletivo” argumentando a favor deste último por reconhecer um caráter de informalidade e a presença de uma “cultura de redes” nestes espaços, muito mais sintonizadas com o ideário ambientalista brasileiro do que a figura de “Conselhos”. Espera-se com esta reflexão que estes próprios Conselhos Jovens passem a visualizar-se como Coletivos Jovens, enquanto nomenclatura, dinâmica de organização e espírito de atuação, significando uma maior coerência entre a idéia original de constituição destes espaços e o processo de construção de suas autonomias como sujeitos sociais pró-ativos na participação dos rumos das questões ambientais brasileiras. Coletivizando Conselhos Jovens: rompendo com paradigmas tradicionais A proposta original de formação dos até então chamados “Conselhos Jovens de Meio Ambiente”, ou meramente CJs, emergiu no bojo do início do processo de organização da I Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente, em 2003, e foi deflagrado em todos os estados do país e conjuntamente com inúmeras organizações de juventude de diversos setores. Buscava-se desde o início com esta ação que: · a temática ambiental pudesse ser fortalecida junto às poucas organizações de juventude já atuantes nesta área; · a inserção da temática ambiental fosse estimulada no âmbito de inúmeras organizações de juventude, que até então não vislumbravam nela uma de suas “bandeiras de luta”, por uma série de fatores; · a temática “juventude” pudesse ser fortalecida no bojo dos coletivos e das organizações da área ambiental, como as redes de educação ambiental, as entidades do SISNAMA, dentre outras; · os jovens pudessem se mobilizar e se fortalecer para atuar junto à Conferência Nacional do Meio Ambiente (versão adultos), elegendo-se como delegados e inserindo suas propostas e temas de interesse neste debate. A estruturação destes Conselhos foi realizada a partir de um processo intenso de articulação e de diálogo com diversas organizações de juventude, atuantes ou não na área ambiental. Esta premissa já indicava que o nome “Conselho” não ilustrava esta idéia-base, porque não apontava para a formalização deste espaço, como se dá em Conselhos de um modo geral. Não se previa a definição de cargos, de presidência e coordenação, não era um espaço de representação da juventude e sua dinâmica de funcionamento também não refletia os pressupostos de conselho. Desta maneira, já era possível identificar diversos elementos que apontavam para a perspectiva de Coletivos, ainda que a nomenclatura adotada fosse a de Conselho. Talvez o argumento que mais pesou na opção por esta última, foi a intencionalidade de assegurar aos jovens espaço efetivo de participação (falar e ser ouvido, tomar decisões) nos processos inerentes a Conferência. A distância entre esta intenção e o exercício efetivo destas premissas foi sendo minimizada no decorrer do processo, cabendo aos próprios membros de cada CJ esta conquista. A ruptura com o modelo tradicional, o qual encontra “eco” em estruturas com formato de Conselhos, por exemplo, se dá justamente na intenção de renomeação destes CJs, considerando que ela traz consigo uma série de conceitos e contribui para amplificar princípios já assumidos por muitos CJs na atualidade. Resgatemos, por enquanto, os dois princípios base dos CJs, explicitados no início da sua formação, em 2003: Jovem educa Jovem: assume-se claramente o papel protagônico dos jovens, como sujeitos sociais que atuam e intervém no momento presente e não num futuro próximo como muitos argumentam. Além disso, demarca-se que esse processo educacional não se dá de maneira tradicional, ou seja, não está sintonizado com as premissas da chamada “Educação bancária” - na transmissão de conhecimentos de quem os detêm (no caso os adultos e/ou os jovens mais experientes) para os que não os detêm (os jovens menos experientes). Assume-se então, que o processo educacional pode e deve ser construído a partir das experiências dos próprios jovens, quaisquer que sejam elas, e que visualiza-se a materialidade deste processo na constituição de “Comunidades de Aprendizagem”. Este conceito representa nada mais do que assumir que um determinado grupo de pessoas, no caso o próprio CJ, pode assumir-se enquanto uma Comunidade que atua aprendendo e que aprende atuando, sem necessariamente depender de agentes externos supostamente mais experientes para tutorar ou conduzir este processo. Jovem escolhe Jovem: demarca-se que são os próprios jovens os mais indicados para tomarem decisões relativas a processos de escolha, sem a interferência de indivíduos e/ou organizações do chamado “mundo adulto”. Fala-se tanto em protagonismo juvenil, identificado por uma série de concepções variadas por trás deste termo, e entende-se que o princípio do “Jovem Educa Jovem” é um bom exemplo de exercício cotidiano deste espírito protagônico, que coloca o jovem no centro da tomada de decisão, a qual é feito pelos próprios jovens e não por terceiros. Para que este princípio possa ser exercitado na prática, ele requer que os jovens experimentem nas suas práticas: maturidade e capacidade de demonstração de que são capazes de realizar, de implementar, de agir, de construir, de fazer acontecer, de executar seus projetos de interesse. Cabe ainda salientar que este princípio não pressupõe o isolamento dos jovens no seu “próprio mundo”, mas ressalta a relevância do diálogo e da parceria entre eles e o chamado “mundo adulto”. Não se pretende que esta ruptura com paradigmas tradicionais conduza a um descolamento dos jovens dos outros sujeitos e organizações sociais, mas que contribua para a construção de um processo de interação e de parceria.
Sabemos ainda que há diversos outros princípios inerentes a esta nova visão de organização das juventudes ao redor da temática ambiental, de caráter não tradicional e sintonizada com pressupostos de uma educação ambiental emancipatória e de um ideário ambientalista contemporâneo, como a autonomia, o diálogo, a emancipação, etc. Buscaremos tratar deles em outras oportunidades, e o resgate de apenas dois destes princípios - “Jovem educa jovem” e “Jovem escolhe jovem” - é apenas uma maneira de enfatizá-los e resgatá-los nesta discussão, com a clareza de que não pretendemos reduzí-la, mas apenas facilitá-la.
Perspectivas para os Coletivos Jovens de Meio Ambiente
No âmbito do processo de organização da II Conferência Nacional Infanto-Juvenil pelo Meio Ambiente (II CNIJ) os Coletivos Jovens (CJs) assumem uma importância crucial para a consolidação da participação da juventude na construção de políticas públicas ambientais. Enquanto a CNIJ remete automaticamente para os estudantes (de 5a. a 8a. série), ela pressupõe uma interação entre eles e os jovens membros dos CJs, à luz do princípio “jovem educa jovem”, ampliando assim a visão sobre o tema “juventude”. Há, entretanto, alguns passos necessários para facilitar a atuação destes CJs neste processo: · implementar um programa continuado de formação de jovens ativistas ambientais, pautado em eixos que venham de encontro às demandas sinalizadas por eles, como: fortalecimento organizacional, facilitação de processos participativos, organização de eventos socioambientais, conceitos de educação ambiental e do ambientalismo, empreendedorismo, dentre outros. · Apoiar a “fixação” destes Coletivos em espaços dotados de um mínimo de estrutura física e material que propiciem sua atuação no Estado. · Estimular que estes Coletivos sejam reconhecidos como espaços legítimos de articulação e de envolvimento de jovens ao redor da temática ambiental. Há certamente outros passos possíveis e necessários que podem ser entendidos como sendo detalhamento destes três ou podem emergir a partir da realidade enfrentada por cada CJ. Entendemos que esta discussão é relevante e que precisa ser estabelecida no bojo de cada CJ, assim como outras questões como: · Onde este Coletivo pretende chegar? Quais são seus objetivos e finalidades? · Que ações e realizações ele pretende desenvolver? Ele atuará apenas em torno de projetos e ações do Governo Federal, especificamente àquelas relativas à Conferência Nacional do Meio Ambiente? · Como o CJ tem se organizado e atuado no dia a dia de modo que ele seja coerente com o que pretende? Quais são as principais dificuldades enfrentadas? Quais as estratégias de superação destas dificuldades? Elas estão sendo efetivamente implementadas na prática? · Qual o nível de interação entre este CJ e outros CJ, organizações de juventude e outros coletivos de meio ambiente? · Como o CJ tem atuado politicamente nos espaços e instâncias existentes em nível local, estadual e nacional, à luz da sua atuação junto à temática ambiental? Como o CJ tem se relacionado com as Comissões Interinstitucionais de Educação Ambiental (CIEAs)? Tem-se clareza de propostas para estes espaços? Entendendo que estas questões foram propostas como um estímulo a cada CJ refletir e dialogar sobre a sua própria existência e importância. Há também na mesma medida inúmeras potencialidades já mapeadas neste processo, as quais enunciamos: · interação destes Coletivos Jovens com outros coletivos, redes, organizações e movimentos de juventude que atuam com a questão ambiental no país; · interação destes Coletivos Jovens com outros coletivos, redes, organizações e movimentos que atuam com a questão ambiental no país; · interação destes Coletivos Jovens com instâncias recém criadas em nível federal, especificamente a Secretaria e o Conselho Nacional de Juventude. Vale ainda ressaltar que o processo de organização da II CNIJ será crucial para o fortalecimento e ampliação da própria Rede da Juventude pelo Meio Ambiente- REJUMA, coletivo este criado em 2003. Entendemos que a visualização dos CJs como “coletivos” pode ainda contribuir para fortalecer a sua articulação no âmbito da REJUMA, além de fortalecer a própria rede. Esta definição dependerá, entretanto, do envolvimento dos próprios participantes desta Rede e de eles próprios visualizarem esta necessidade. Há questões correlatas que precisam ser discutidas, como a relação entre estes CJs e a Rede, e entre ambos e a Conferência Infanto-Juvenil. Esta discussão encontra-se em curso e ao cada CJ assumir-se como Coletivos ao invés de Conselhos, amplia-se as perspectivas de superação dos desafios aqui enunciados, por diversos motivos: · por “informalizar” estes espaços, o que propicia maior flexibilidade de atuação e abertura para um fluxo mais livre de membros (e de interssados); · por assumir que não são espaços de representação, mas sim de mobilização, atuação e articulação em torno da temática socioambiental; · por estabelecer mais claramente interação com princípios e ideiais de “Redes”, como por exemplo a não preferência pela sua institucionalização, a livre circulação de informações, de idéias e de pessoas, a multiliderança, etc. Esta releitura dos “conselhos” para “coletivos” abre caminhos para a superação destes (e de outros) desafios, os quais podem ou não ser seguidos. Essa opção fica, portanto, ao sabor da decisão de cada um.
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