Textos de Apoio

 

Texto 01 - Subsídios ao Eixo - Redes

 

Em busca do conceito de “Redes”

            Fábio Deboni

 

            Aceita por todos como fato presente em nossas vidas, a atuação em rede é algo de que hoje muito se fala. Entretanto, pouco se compreende em termos concretos, o que isto significa. Fala-se em rede de transportes, rede de ensino público, rede de abastecimento, rede elétrica, rede de televisão, rede de lojas; sem que percebamos, utilizamos o termo redes para os mais diversos fins. E é impressionante como se observa uma consistência no emprego do termo para uma multiplicidade de aplicações (LIPNACK & STAMPS, 1992, p. 18).

            Redes são estruturas abertas capazes de expandir de forma ilimitada, integrando novos nós desde que consigam comunicar-se dentro da rede, ou seja, desde que compartilhem os mesmo códigos de comunicação (por exemplo, valores ou objetivos de desempenho). Uma estrutura social com base em redes é um sistema aberto, altamente dinâmico suscetível de inovação sem ameaças ao seu equilíbrio(...). Mas a morfologia da rede também é uma fonte de drástica reorganização das relações de poder (CASTELLS, 2000, p.498).

            Para melhor compreensão deste conceito, é preciso visualizar e compreender algumas de suas características.

 

Principais Características do Trabalho em Redes

Características

O que significa

Horizontalidade

Premissa essencial para uma rede, todos têm a mesmo poder de decisão.

Multiliderança

Não há chefes na rede, mas sim muitos líderes.

Objetivos compartilhados

Não há redes se seus membros não compartilharem os mesmos objetivos e valores.

Livre intercomunicação horizontal

O fluxo de informações é livre entre os membros da rede. Não há censura.

Co-responsabilidade

Todos são co-responsáveis pelo funcionamento da rede, o que requer iniciativa individual.

Democracia

A participação na rede se dá de forma democrática, pautada pela transparência nas relações.

Solidariedade

As redes se contrapõem à cultura do “levar vantagem” e do “guardar pra si”.

Autonomia e empoderamento dos seus membros

Organizar-se em rede pressupõe a busca continuada pela emancipação de seus membros, sendo portanto um operação de natureza política.

Livre entrada e saída

A rede está sempre aberta à entrada e à saída de participantes.

 

 

Conceitos associados ao “organizar-se em Rede”

 

            Quando falamos em Redes, imediatamente trazemos conceitos associados, que fazem parte do repertório desse tipo de organização. Redes são usualmente definidas como um sistema de nós (ou nodos) e elos, termos utilizados para se descrever redes físicas, como a telefônica.

            Enquanto fonte ou receptora de informações, uma pessoa é um nó. Enquanto portadora de informações, fazendo uma conexão entre nós, uma pessoa é um elo. A essência do trabalho em redes reside no relacionamento pessoa-pessoa (LIPNACK & STAMPS, 1992, p. 10).

            Além destes dois novos conceitos apresentados (nós e elos), há pelo menos mais dois termos associados consideravelmente inerentes ao trabalho em redes: facilitação e hospedagem.

            Para que a rede funcione com certo dinamismo, é necessária a figura do facilitador, ou animador. Cada rede pode ter de um a muitos facilitadores ou animadores, os quais não detêm poderes diferenciados dos demais membros da rede, mas apenas apresentam atributos específicos que os qualificam facilitadores. Eles não coordenam ou comandam a rede, apenas criam condições propícias ao fluxo de informações. Para tanto, necessitam ser reconhecidos pelos participantes da rede como tal.

            Com relação ao segundo termo, hospedagem, a rede necessita de facilitadores que por sua vez precisam de alguma estrutura de “suporte” à rede. Como a rede não apresenta (nem deve apresentar) natureza jurídica, trata-se de uma forma de organização que congrega horizontalmente diversas instituições e pessoas. Assim como a rede necessita do papel de facilitadores, ela também necessita ser “hospedada” por alguma ou algumas instituições. Por exemplo, a Rede Brasileira de Educação Ambiental – REBEA[1] – atualmente está hospedada no Instituto Ecoar para a Cidadania, uma ONG de SP. Cabe ressaltar que tanto a facilitação quanto à hospedagem de redes é um processo também dinâmico, está sempre mudando conforme as entradas e as saídas de participantes e de acordo com o próprio funcionamento da rede.

 

Objetivos comuns do trabalho em Redes

 

            Em geral a organização em redes pressupõe compartilhar alguns objetivos em comum:

- intercâmbio de informações;

- contribuir para formação de seus membros;

- criar laços de solidariedade;

- realizar ações em conjunto.

            Podemos, no entanto, estar dispostos em rede, sem operar em rede. O que faz da arquitetura de rede uma rede é seu modo de funcionamento. No caso que nos importa aqui: um modo de operar que contemple, pressuponha e atualize a autonomia dos membros da rede; que faça da horizontalidade, da descentralização, do empoderamento e da democracia uma ética de operação (MARTINHO,, p. 2).

 

Como se organizar em Rede?

 

            O primeiro passo para quem deseja organizar-se em rede passa pela necessidade de identificação de objetivos comuns, para que cada membro possa efetivamente sentir-se pertencente à rede. A noção de pertencimento está diretamente vinculada ao conceito de participação. Participar pressupõe sentir-se parte, perceber-se pertence ao grupo, à rede, etc.

            Vencido este primeiro passo, é necessária a definição de facilitadores para a rede e onde a mesma estará hospedada. Como vimos anteriormente, a facilitação ou animação é característica básica para o “organizar-se em rede”, juntamente com a hospedagem da rede em si. Um outro conceito associado diretamente vinculado a estes dois é o de Secretaria Executiva. Comumente a instituição que hospeda a rede e que tem pessoas que a facilitam acaba se tornando a Secretaria Executiva da rede.

 

Algumas tipologias de redes

            O trabalho de INOJOSA, 1999 nos aponta algumas tipologias de redes. É possível, segundo ela, “distinguir alguns tipos, segundo as relações entre os parceiros e segundo o foco de atuação” (p. 3)

 

Quadro 1 – Tipos de redes, quanto à relação entre os parceiros

Rede Subordinada

Rede Tutelada

Rede Autônoma

·         Entes são parte de uma organização

·         Existe uma interdependência de objetivos

·         A articulação depende da vontade dos entes

·         Há apenas um lócus de controle

·         Entes têm autonomia mas articulam-se sob a égide de uma organização

·         Rede fica dependente da persistência de propósitos do ente mobilizador

·         Ente mobilizador tende a ficar como lócus de controle

·         Entes são autônomos e articulam-se voluntariamente

·         Pressupõe uma idéia-força mobilizadora

·         A rede é aberta e trabalha por pactuação

·         As identidades dos parceiros são preservadas e é construída uma identidade da rede

·         O controle é compartilhado

Fonte: INOJOSA, 1999, p. 4-5.


Quadro 2 – Tipos de redes, quanto ao foco de atuação

Redes de Mercado

Redes de Compromisso Social

·         São redes articuladas em função da produção e/ou apropriação de bens e serviços

·         Visam a complementaridade ou a pontencialização dos parceiros face ao mercado

·         As relações são perspassadas pelos interesses do mercado, e podem oscilar entre cooperação e competição

·         A relação de parceira das redes de mercado tende a ser de subordinação ou tutela.

·         São redes que têm como foco questões sociais

·         Visam complementar a ação do Estado ou suprir a sua ausência no equacionamento de problemas sociais complexos, que põem em risco o equilíbrio social

·         As relações nascem e se nutrem de uma visão comum sobre a sociedade ou sobre determinada questão social e da necessidade de uma ação solidária

·         Demanda estratégias de mobilização constante das parcerias e de reedição.

Fonte: INOJOSA, 1999, p. 6.

 

            WHITAKER (1993) também propõe uma tipologia de redes, mais simplificada. As redes podem interligar somente pessoas; somente entidades; e ambos. Também  podem ser de diferentes tamanhos – de uma equipe que trabalhe em rede a uma rede de bairro ou de sala de aula, até uma rede internacional. Podem existir igualmente redes de redes. E dentro de uma rede podem se formar sub redes, com objetivos específicos” (op. cit., p. 8).

 

O que fortalece a Rede?

 

 

Dificuldades do trabalho em rede

            Podemos identificar algumas barreiras comuns à articulação de redes organizacionais. Estas dificuldades podem ser classificadas em três tipos de limitações:

1)        Barreiras Políticas: quanto mais uma rede for coesa e dotada de um propósito claro e unificador, mais preparada ela estará para lidar com problemas de relacionamento entre seus integrantes. É preciso que a rede se organize como uma equipe, o que é bem diferente de um agrupamento.

2)        Barreiras Técnicas: estão relacionadas às estratégias de comunicação entre os participantes da rede. É comum as redes optarem pelo uso de sofisticadas plataformas de comunicação baseadas na informática (internet) e os participantes menos familiarizados com estas novas tecnologias acabam enfrentando algumas dificuldades ao utilizá-las.

3)        Barreiras Internas: o próprio processo de organização da rede pressupõe certas dificuldades, a começar pela própria questão conceitual. Muitos participantes têm certa dificuldade em entender a dinâmica de funcionamento de uma rede, o que pode ser decorrente de uma cultura baseada em estruturas hierarquizadas e pouco flexíveis, nas quais estamos inseridos desde a infância. Além desta dificuldade, há a necessidade de clareza dos papéis de cada participante na rede bem como dos objetivos da mesma.

 

Referências

 

AYRES, B.  Redes organizacionais no terceiro setor – um olhar sobre suas articulações.  Rio de Janeiro, 2001., 15 p.

CASTELLS, M.  A sociedade em rede. São Paulo : Paz e Terra, 1999.

FACHINELLI, A.C. et al.  A prática da gestão de redes: uma necessidade estratégica da Sociedade da Informação” In: Revista Com Ciência, 2000.

INOJOSA, R.M. “Redes de compromisso social” In: Revista de Administração Pública, Rio de Janeiro : FGV, 33 (5), set/out 1999, 115-141 p.

LIPNACK, J. & STAMPS, J.  Networks: Redes de Conexões. São Paulo : Aquariana, 1992.

MACHADO,  A.L.I. et all  Las redes como instrumentos de transformación social. Caracas,  www.rbc.org.br, 1999.

MARTINHO, C.  Redes e desenvolvimento local.  www.rbc.org.br

PRADO, J.L.A.  A naturalização da rede em Castells. www.rbc.org.br

WHITAKER, F.   Rede: uma estrutura alternativa de organização.  CEDAC/ Ano 2/ no 3, 1993, 12 p.

Alguns sites de Referência

www.rits.org.br - Rede de Informações para o Terceiro Setor

www.rebea.org.br - Rede Brasileira de Educação Ambiental

www.repea.org.br - Rede Paulista de Educação Ambiental

www.univag.com.br/remtea - Rede Mato-grossense de Educação Ambiental

www.ecosol.org.br - Rede de Economia Popular Solidária

www.redeceas.esalq.usp.br - Rede Brasileira de Centros de Educação Ambiental

www.redeaguape.org.br - Rede Pantanal de Educação Ambiental

 www.reasul.univali.br - Rede Sul Brasileira de Educação Ambiental

 

Texto 02- Subsídio ao Eixo de Educação Ambiental

 

Reconceituando Educação Ambiental

 

Prof. Aziz Nacib Ab'Saber

 

Educação Ambiental é uma coisa mais séria do que geralmente tem sido apresentada, em nosso meio. É um apelo à seriedade do conhecimento. É uma busca de propostas corretas de aplicação de ciências. Uma "coisa" que se identifica com um processo. Um processo que envolve um vigoroso esforço de recuperação de realidades nada simples. Uma ação, entre missionária e utópica, destinada a reformular comportamentos humanos e recriar valores perdidos ou jamais alcançados. Um esforço permanente na reflexão sobre o destino do homem - de todos os homens - face à harmonia das condições naturais e o futuro do planeta "vivente", por excelência. Um processo de Educação que garante um compromisso com o futuro. Envolvendo uma nova filosofia de vida. E, um novo ideário comportamental, tanto em âmbito individual, quanto na escala coletiva.

Para atingir seus objetivos, a Educação Ambiental - aquela verdadeira e incorruptível - exige uma sensibilidade especial para as coisas da natureza e a melhoria da estrutura da sociedade. Logo, carece de um certo conhecimento articulado sobre a região que serve de suporte, para homens-habitantes, homens-produtores, e homens integrados em certas condicionantes sócio econômicas. É impossível consolidar um corolário de Educação Ambiental exclusivamente em atendendo à escala planetária ou à escala nacional. Pelo contrário, ele envolve todas as escalas. Começa em casa. Atinge a rua e a praça. Engloba o bairro. Abrange a cidade ou a metrópole. Ultrapassa as periferias. Repensa o destino dos bolsões de pobreza. Penetra na intimidade dos espaços ditos "opressores". Atinge as peculiaridades e diversidades regionais. Para só, depois, integrar, em mosaico, os espaços nacionais. E, assim colaborar com os diferentes níveis de sanidade exigidos pela escala planetária, dum fragmento de astro que asilou a vida e deu origem aos atributos básicos do ser que pensou o Universo.

A Educação Ambiental obriga-nos a um entendimento claro sobre a projeção dos homens em espaços terrestres, herdados da natureza e da história. O lugar de cada um nos espaços remanescentes de uma natureza modificada; o lugar de cada um nos espaços sociais criados pelas condicionantes sócio -econômicas. E, tempo suficiente, para pensar na harmonia ou nos desajustes entre as formas de ocupação dos solos rurais, face à posição, dinâmica e tendência de crescimento das cidades. Os organismos urbanos estão sempre invadindo espaços rurais, produtores de alimentos e matérias primas: nunca se ouviu falar de espaços urbanos invadidos por atividades agrárias! Quando se estabelece a cornubação em uma rede de cidades, a emenda das manchas urbanas implica em um desaparecimento completo da produtividade agrícola regional.

A preocupação básica da Educação Ambiental é a de garantir um meio ambiente sadio pra todos os homens e tipos de vida existentes na face da Terra. Pretende-se ajudar a preservação da biodiversidade in situ: re-introduzir vegetação onde for possível; sequestrar o gás carbônico liberado para a atmosfera nos últimos 100 anos da Revolução Industrial; multiplicar os bancos de germoplasma necessários à produção de alimentos, e, à introdução ou re-introdução de biomassas de interesse ambiental, social e econômico. Resguardar a biodiversidade animal, evitando interferências maiores nos nichos e habitats que propiciaram condições para a permanência de diferentes espécies. Enfim, evitar extinções provocadas por ações predatórias, tão inconseqüentes quanto muitas vezes desnecessárias.

Garantir a existência de um ambiente sadio para toda a humanidade implica em uma conscientização realmente abrangente, que só pode Ter ressonância e maturidade através da Educação Ambiental. Um processo educativo que envolve ciência e ética, e uma renovada filosofia de vida, dotados de atributos e valores essenciais: capacidade de escrever sua própria história; informar-se permanentemente do que está acontecendo em todo o mundo; criar culturas e recuperar valores essenciais da condição humana. E, acima de tudo, refletir sobre o futuro do planeta.

Para alcançar seus objetivos maiores, a Educação Ambiental defende uma somatória  de sanidades. Sanidade do ar. Sanidade das águas. Sanidade das coberturas vegetais remanescentes. Sanidade do solo e do subsolo. Uma maior harmonia e menos desigualdades no interior da sociedade. A possibilidade de uma habitação adequada e sadia. Um transporte coletivo menos sofrido (e menos poluente). Condições razoáveis no ambiente de trabalho “intramuros”. Nas fábricas e oficinas. Um ambiente que ajude a prolongar a vida e o bem estar de todos os membros da sociedade: crianças, velhos e adultos. Não há que pagar um dinheiro extra a título de salário de insalubridade, quando se sabe que a continuidade desta atividade, em condições ambientais tão precárias, é o caminho para a doença, o envelhecimento precoce, a morte. Há que exigir, sim, um ambiente o mais sadio possível, no interior de todas as instalações industriais. É imoral e desumano pagar um pouco mais para que pessoas "esteios de família" vivam menos.

Enfim, Educação Ambiental exige método, noção de escala; boa percepção das relações entre tempo, espaço e conjunturas; conhecimentos sobre diferentes realidades regionais. E, sobretudo, códigos de linguagem adaptada às faixas etárias do alunado. É um processo que, necessariamente, revitaliza a pesquisa de campo, por parte dos professores e dos alunos. Implica em um exercício permanente de interdisciplinaridade - a prévia da transdisciplinaridade. Faz balançar o gasto coreto das velhas disciplinas, eliminando teorizações elitistas e aperfeiçoando novas linhas teóricas, em bases mais sólidas e de entendimento mais amplo. Nesse sentido, a Educação Ambiental, bem conduzida, colabora efetivamente para aperfeiçoar um processo educativo maior, sinalizado para a conquista ou reconquista da cidadania. É a nova "ponte" entre a sabedoria popular e a consciência técnico-científica. Um artifício e uma escadaria para se escapar da impotência e infertilidade da torre de marfim, e esgrimir no céu aberto do cotidiano.

Não há lugar para se conduzir, no processo educativo, - dito ambiental -, tentando impingir noções genéricas para habitantes da beira de um lago ou das margens de um rio ou "furo" da Amazônia, e estendendo-se para os moradores dos sertões interiores ou das coxilhas do Rio Grande do Sul. Ou, tentar utilizar material documentário preparado para alunos residentes em áreas de solos férteis e rios perenes, projetando-o para meninos ou adolescentes residentes em rústicos sertões do Nordeste Seco, em que os rios correm por 5 a 6 meses durante o ano, e em que as condições culturais e sociais da população são totalmente diversas. Ou, ainda, pretender usar conhecimentos e posturas relacionados aos lindos litorais do Brasil atlântico, no ensino dirigido para crianças, adolescentes e adultos, condenados à vivência em favelas. Ou, aos pobres trabalhadores, semi-escravos, que mourejam no coração das selvas.

 

 

Alguns sites de Referência

 

http://www.rebea.org.br/                    Rede Brasileira de Educação Ambiental

http://www.agenda21.org.br/             Portal da Agenda 21

http://www.geocities.com/cream_br/   Centro de Referencia em Educação Ambiental

http://www.repea.org.br/                                Rede Paulista de Educação Ambiental

www.redeambiente.org.br/                            Rede Ambiente

 

 

Texto 03 - Subsídio ao Eixo da Conferência Nacional

 

Vamos cuidar do Brasil (Lema da Conferência)

Marcos Sorrentino e Rachel Trajber

 

“Cuidado com o meio ambiente” pode ter um triplo sentido:

-          o urbano e do “chapeuzinho vermelho” : cuidado com o lobo mau, com as aranhas e cobras, etc.

-          o Parque Nacional, espaço protegido, intocável, do proibido, não toque...

-          o “saber cuidar”, tratar bem, presente nos discursos e textos do Leonardo Boff e certamente nas intenções dos proponentes do tema desta palestra.

 

Com este terceiro sentido nos identificamos, não apenas intelectualmente, pelos conhecimentos advindos da ciência ambiental (aqui há uma polêmica entre os que falam em ciências ambientais – direito, biologia, sociologia, antropologia, geografia, história, etc., qualificados pelo adjetivo ambiental – e aqueles que compreendem o ambiente como uma totalidade complexa e a necessidade de uma ciência ambiental unificada que procura compreendê-lo em sua totalidade) mas também  por uma história de vida/vivência onde a nossa sobrevivência advém diretamente do saber cuidar do meio, saber sobreviver dele e com ele.

 

Nesse sentido, cuidar é mais que um ato, é uma atitude que implica responsabilidade e envolvimento. É um compromisso ético que emerge do fato de não somente existirmos como indivíduos, mas co-existirmos em sociedade; de não apenas vivermos, mas convivermos com outros seres no mesmo ambiente. Essa interdependência torna cada um de nós responsável por sustentar a vida.

 

O Brasil é a nossa casa, por isso merece cuidado todo especial. O Brasil é o espaço do mundo onde vivemos, nos desenvolvemos, aprendemos e organizamos nosso habitat.

 

OO O primeiro ponto a ser destacado para sabermos cuidar do meio ambiente é amar e reverenciar a Vida. É com o ambiente conviver, nele se integrar e a ele se entregar. Nos entregarmos de corpo e alma a esta causa, primeiro absorvendo-a brincando, em seguida trabalhando, observando e conhecendo. A maneira humana de defender o meio ambiente é estudando-o procurando criar políticas públicas que estimulem mais e mais pessoas a se engajarem nesta luta que é de toda a humanidade.

 

Em termos de amor e de relações com o meio ambiente, não vale ter medo, temor, receio de se entregar. Deve haver reverência, respeito ao outro, reconhecimento das diferenças e da diversidade, mas acima de tudo, deve haver amor, dedicação, carinho, tolerância, espera, contemplação, busca sincera de compreensão das diferenças e semelhanças... Como diz o poeta “eu sou eu, você é você e vejo flores em você...”.

 

É preciso despertar/aprofundar em nossas crianças, jovens, adultos e idosos, o Amor à Vida, e ao outro, em todas as suas peculiaridades e diversidade.

 

O segundo ponto, para chamar a atenção, é para não reduzirmos o meio ambiente à natureza. Meio ambiente é natureza, com todas as suas formas de vida em seus distintos sistemas naturais, mas é também os espaços construídos, as cidades e o modo de organização dos humanos. Tem um autor (Ignacy Sachs) que fala em cinco dimensões ambientais em meio às quais vamos construindo a nossa existência/experiências – a primeira delas é a do nosso próprio corpo – respiração, alimentação, formas de sentir, entender e expressar o mundo através ou com o ferramental disponível nesta “carcaça”; a segunda, é  a nossa subjetividade, nossas emoções, a alma e o espírito, enfim, o “lócus” que nos conecta a algo que está além do corpo e que cada um nomeia da forma que a sua cultura lhe permite nomear ou sentir; a terceira dimensão é a do meio físico onde vivemos, desde os espaços e paisagens cotidianos até a Terra com os seus climas e sistemas naturais como um todo; a quarta, é a das relações inter-pessoais, o nosso diálogo e relações com aqueles com os quais convivemos – a família, as tribos de convivencialidade, os grupos de trabalho e estudos, etc.; e por fim, a dimensão das nossas relações com a sociedade e seus modos de organização e produção – as leis e hierarquias, as convenções e classes sociais, os sistemas de tomada de decisão, as nações, o mercado, o estado, etc.

 

O terceiro e último ponto , no sentido de cada pessoa (e do Brasil) Cuidar do meio ambiente, é o da Participação Emancipatória, voltada a criar autonomia na interdependência, compromisso, responsabilidade com o destino comum, nosso e de nossos descendentes, de toda a nossa espécie e de todas as espécies. Participação que desenvolve o sentimento de pertença. O Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global, escrito na Rio 92 no Fórum das ONGs e Movimentos Sociais, já falava sobre isto.

 

Aqui vale a pena enfatizarmos a importância de levarmos para as redes de ensino e para as escolas e acima de tudo, para dentro da sala de aula, aquilo que estamos procurando implementar no Ministério do Meio Ambiente:

 

Transversalidade dos conteúdos e nos métodos e técnicas de construção de conhecimentos (partir da complexidade e da criticidade e chegar à didática dos estudos do meio e do ensino por solução de problemas); Controle Social/transparência/participação (só aprenderemos a controlar os governos e o mercado, se aprendermos a controlar o nosso próprio aprendizado cotidiano, participando das tomadas de decisão e com elas se comprometendo); Orientação para a Sustentabilidade, só construiremos sociedades sustentáveis se desde a sala de aula cultivarmos os princípios da sustentabilidade em suas distintas dimensões.

 

Para isto, inúmeras experiências em todo país estão contribuindo. Realizadas por educadores e educadoras nos mais diversos tipos de trabalhos, elas terão no MMA acolhida e apoio. Hoje já podemos disponibilizar o SIBEA, que é uma rede informatizada de informações sobre educação ambiental, que vem sendo construído junto com a Rede Brasileira de EA e com outras Redes e iniciativas.

 

A Conferência Nacional Infanto-juvenil pelo Meio Ambiente pretende trazer para o debate da Educação Ambiental que cuidar do meio ambiente significa lutarmos por qualidade de vida, por um país com inclusão na diversidade e gestão democrática, da sala de aula às redes de ensino. Exercício cotidiano de participação e de criticidade – em uma perspectiva que vai além da tradicional, sempre vinculada às ciências naturais, mas que incorpora a dimensão da política.


Esquema das idéias:

 

Conceitos de cuidar da natureza

Leva a uma postura de

Sentido profundo a ser trabalhado pela Educação

1. Urbano – tomar cuidado com os supostos perigos da natureza (tipo Chapeuzinho Vermelho, floresta cheia de perigos, lobo mau...)

Intolerância, medo, de desejo de subjugar a natureza.

As pessoas não toleram conviver com seres diferentes. Algumas matam tubarões a pauladas (como aconteceu no Rio de Janeiro recentemente), outras queimam índios...

 

Com-paixão

Conhecer para respeitar e amar

2. Intocável – a natureza precisa ser protegida dos seres humanos, se faz espaços naturais segregados, proibidos, longe de tudo - se separa a natureza da vida cotidiana das pessoas.

Distanciamento espacial, temporal. A relação com a natureza fica fria, amparada nas leis.

Con-viver

3. Cuidar, no sentido do Leonardo Boff = um sentido de participação política, nas diversas formas de convivialidade entre os seres humanos e entre estes e a natureza.

Respeito, amor. ECO = casa, envolve fazermos um pacto com todas as nossas “casas”:

o        Nosso corpo

o        Nossa subjetividade (espírito / sentimentos)

o        Nosso meio ambiente (no sentido amplo)

o        Nossas relações interpessoais

o        Nossa comunidade / sociedade / escola

o        Nossa Terra.

Com-promisso

Co-responsabilidade

 

O que faz uma escola sustentável?

o        Todas as dimensões de sustentabilidade: ambiental, econômica, cultural, social, espacial e política.

o        As diretrizes do MMA.

 

Texto base escrito por Marcos Sorrentino em maio/2003 para subsidiar Ministra Marina Silva para Congresso da UNDIME, modificado por Rachel Trajber em julho /2003 para subsidiar as Oficinas de Conferência a serem trabalhadas com grupos de multiplicadores em todos os estados.

 

Trata-se de fazermos com que esses conceitos se multipliquem e enraízem como um rizoma, na forma com que a grama se espalha no solo: em todas as direções, se ramificando, sempre ligada à terra e aos seus galhos.

 

Alguns sites de Referência

www.mma.gov.br               Ministério do Meio Ambiente

http://www.ibama.gov.br/       Ibama

Conferência Nacional do Meio Ambiente:

http://www.mma.gov.br/conferencianacional/

http://www.mma.gov.br/conferenciainfantojuvenil/



[1] www.rebea.org.br

 

 

 

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